28 processos. Zero condenações. O que o documentário sobre os Arautos não te contou.
Você assistiu ao documentário, ficou chocado, e agora quer entender o outro lado? Este artigo existe para isso.
Nos últimos dias, muitas pessoas me procuraram perturbadas depois de assistir a um documentário na HBO sobre os Arautos do Evangelho. As mensagens seguem um padrão parecido:
“Kevin, eu frequento as missas deles, acho tudo muito bonito, mas depois do que vi... não sei mais o que pensar.”
Eu entendo. Um documentário bem produzido, com música tensa, relatos emocionais e edição cinematográfica, é feito para gerar essa reação. Mas documentário não é tribunal. E quando a gente vai atrás dos fatos — dos documentos, das sentenças, dos processos — a história muda completamente.
Vou apresentar os fatos. Sem sensacionalismo, sem apelação emocional. Só dados verificáveis.
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Os 28 processos que ninguém menciona
Este é o dado mais importante de todo este artigo, e o mais ignorado pela mídia:
28 processos judiciais foram abertos contra os Arautos do Evangelho no Brasil ao longo dos últimos anos — inquéritos policiais, ações cíveis, investigações trabalhistas, ações do Ministério Público.
Todos — sem exceção — foram arquivados ou decididos favoravelmente aos Arautos.
Não estamos falando de opinião. Estamos falando de decisões do Tribunal de Justiça de São Paulo, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), do Ministério Público, da Polícia Civil. Investigações com visitas in loco, oitivas de testemunhas, análise documental.
Alguns exemplos:
Alegação de cárcere privado, trabalho escravo e lavagem cerebral: arquivado por falta de prova.
Alegação de violência sexual: a própria mãe da suposta vítima declarou que a filha tinha transtornos psiquiátricos e inventava histórias. Arquivado.
Ação da Defensoria Pública de SP buscando R$25 milhões: extinta por ilegitimidade. O Tribunal de Justiça de SP confirmou por unanimidade.
Ação Civil Pública no RJ: vitória dos Arautos em segunda instância. STJ negou recurso do MP.
Alegação de trabalho infantil: inspeção no local não encontrou irregularidade. Arquivado.
Esses dados constam de um relatório reservado produzido em novembro de 2024 pelo Dr. Hugo Cysneiros, assessor jurídico da CNBB e do próprio Comissariado, ou seja, alguém nomeado pelo Vaticano para acompanhar o caso.
Se houvesse algo real, em 8 anos de investigação intensa, pelo menos um processo teria resultado em condenação. Nenhum resultou.
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“Mas são muitos relatos. Não dá pra dizer que estão todos mentindo.”
Essa é a objeção mais comum e a mais compreensível.
Quando se vê várias pessoas relatando experiências negativas, o instinto natural é pensar: onde há fumaça, há fogo.
Mas quando se investiga a origem dessa fumaça, descobre-se algo revelador.
O próprio Visitador Apostólico nomeado pelo Vaticano, Dom Sérgio de Deus Borges, Bispo Auxiliar de São Paulo, confirmou em carta oficial de 21 de dezembro de 2018 ao Cardeal Braz de Aviz:
“Os testemunhos e denúncias negativos não vieram de visitas in loco, mas de grupos externos, ex-arautos e desafetos.”
As queixas vieram de um grupo de 20 a 30 pessoas, ex-membros organizados em grupos de Facebook como “Ex-Arautos Hard”. Isso foi documentado em ata notarial, com capturas de tela autenticadas em cartório.
Enquanto isso, do outro lado, os números são esmagadores:
1.734 testemunhos de clero e religiosos a favor
639 testemunhos de ex-membros favoráveis
650 cartas de personalidades civis
188 testemunhos familiares
1.021 pedidos para testemunhar a favor
Duas acusadoras-chave que apareceram na mídia internacional fizeram retratação judicial na Colômbia, admitindo que suas declarações não correspondiam à realidade.
Então não se trata de “todos estão mentindo”. Trata-se de um grupo pequeno e organizado contra milhares de testemunhos ignorados.
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O que os Visitadores do Vaticano realmente encontraram
Este talvez seja o dado mais surpreendente.
O Vaticano enviou três Visitadores para investigar os Arautos durante 18 meses. Visitaram todas as casas canônicas no mundo. Entrevistaram 1.824 membros individualmente.
O resultado?
Ir. Maria Antonieta Bruscato, co-visitadora, declarou:
“Se há 100 acusações e pontos negativos, os Arautos têm mil e quinhentos pontos positivos.”
“Não havia esqueletos no armário.”
Dom Sérgio de Deus Borges, co-visitador, escreveu:
“Nas casas visitadas, não encontramos nenhuma irregularidade, nenhuma violação do direito próprio ou do direito comum.”
O próprio Comissário nomeado pelo Vaticano, Cardeal Raymundo Damasceno Assis, afirmou categoricamente nunca ter recebido denúncias de abuso de menores, moral ou sexual. Em seu relatório de 2025, considerou sua missão completa.
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A tristeza nos rostos
Muitas pessoas dizem: “Mas eu vejo nos rostos das irmãs que algo não está bem.”
Eu também vejo. E a explicação é mais simples — e mais triste — do que o documentário sugere.
Essas irmãs estão há mais de 6 anos sob um Comissariado que:
Bloqueou a ordenação de 27 diáconos sem apresentar nenhuma causa canônica
Impediu a realização da Assembleia Geral e dos Capítulos
Destituiu ilegalmente a Ecônoma-Geral sem sequer emitir um decreto escrito
Teve colaboradores que usavam táticas de pressão psicológica
Bloqueou mais de 200 aspirantes de ingressar na vida religiosa
Imagine viver anos sob intervenção sem saber do que você é acusada, sem direito de defesa, vendo suas vocações e as de seus irmãos bloqueadas indefinidamente.
A tristeza que se vê tem uma causa, mas não é a que o documentário sugere.
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“Exorcismo em nome de Plínio? Onde está isso na doutrina?”
Essa é outra pergunta frequente. E a resposta vai surpreender quem não conhece a história da Igreja.
Invocar um santo fundador ou intercessor durante orações de libertação é uma prática antiquíssima e profundamente enraizada na tradição católica.
Santo Inácio de Loyola, fundador dos Jesuítas, é um dos casos mais célebres. Em 1598, em Módena, sacerdotes jesuítas utilizaram uma relíquia do Pe. Inácio [SIM, PADRE INÁCIO!] durante um exorcismo, e o próprio demônio gritou:
“Sai desse osso uma chama que me queima e me devora! Inácio me expulsa!”
— repetindo três vezes e acrescentando que outros milagres se operariam em seu nome. A assinatura de Inácio foi usada para exorcizar uma mulher possuída há 11 anos em Palma de Mallorca. Rubens imortalizou esses milagres em dois retábulos famosos em Viena e Gênova. (Fonte; JAMA Psychiatry)
São Padre Pio: o Pe. Gabriele Amorth, exorcista oficial da diocese de Roma por décadas, invocava a intercessão de Padre Pio durante seus exorcismos. Os demônios gritavam: “Esse frade, não! Padre Pio, não!” (Fonte)
O próprio Rito do Exorcismo inclui a Ladainha dos Santos como uma de suas partes essenciais, e permite inserir nomes de santos específicos conforme o caso.
O que os Arautos faziam eram exorcismos privados, orações de libertação, que qualquer sacerdote pode realizar sem licença episcopal. O Vigário Judicial da Diocese de Bragança Paulista (Pe. Dr. Rogério Ramos, CSsR) concluiu em parecer formal de julho de 2018: “Nenhum ato ilícito foi cometido.”
A própria Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano investigou e arquivou todas as acusações.
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Os pais que ninguém ouviu
O documentário insinua que crianças eram mantidas contra a vontade das famílias. Mas 2.583 pais e responsáveis assinaram uma petição ao Vaticano defendendo os Arautos e negando terem feito qualquer reclamação.
A AMPARE — Associação de Mães e Pais de Arautos Estudantes — lutou judicialmente pelo direito de manter seus filhos na formação dos Arautos. O Tribunal de Justiça de São Paulo deu razão aos pais.
O Arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, comentou: “Ninguém melhor que os pais dos estudantes para defender verdade e justiça.”
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A pergunta que não quer calar
Se tudo o que o documentário mostra fosse verdade — abusos, coerção, crimes — por que, em 8 anos de investigação intensa, com 28 processos judiciais, investigações policiais em 9 cidades brasileiras, e escrutínio do próprio Vaticano, nenhum tribunal — civil ou eclesiástico — jamais condenou os Arautos?
Existe hoje um livro que documenta essa história inteira com provas, atas de reuniões, cartas oficiais, decretos, pareceres jurídicos e sentenças judiciais: “O Comissariado dos Arautos do Evangelho — Crônica dos Fatos 2017-2025”, organizado pelo Prof. Dr. José Manuel Jiménez Aleixandre e pela Ir. Dra. Juliane Vasconcelos Almeida Campos.
Antes de formar uma opinião definitiva, leia os dois lados. A verdade não tem medo de ser investigada.




